# Síntese das Leituras 1 a 6 — Introdução às RI

> **O que este bloco de leituras faz**
> Não são seis textos avulsos: são **três camadas** que se respondem umas às outras. Jackson & Sørensen dão o mapa consensual do manual; Cravinho ataca esse mapa por dentro (a história da disciplina, a história de Vestefália e o próprio conceito de Estado); Duarte fornece o vocabulário de poder que falta às outras duas. Quem perceber a **discussão entre eles** tem a cadeira ganha; quem decorar as listas, não.

## As seis leituras

| N.º | Obra | Capítulo | Páginas |
|---|---|---|---|
| 1 | Cravinho (?), *Visões do Mundo* | Cap. 3 — A sociedade internacional entre as duas guerras mundiais | 87-113 |
| 2 | Cravinho (?), *Visões do Mundo* | Cap. 9 — Governância e globalização | 265-292 |
| 3 | Cravinho (?), *Visões do Mundo* | Cap. 8 — Instrumentos teóricos (excerto: o conceito de Estado) | 255-263 |
| 4 | Cravinho (?), *Visões do Mundo* | Cap. 2 — Vestefália e a evolução da sociedade internacional moderna | 59-83 |
| 5 | Paulo Duarte, *Metamorfoses no Poder* | Cap. I — O conceito de poder (ignorar a parte da hegemonia) | 23-47 |
| 6 | Jackson & Sørensen, *Introdução às RI* | Cap. 1 — Por que estudar RI? (até à p. 59) | 24-59 |

⚠️ POR CONFIRMAR: autoria e ano da obra das leituras 1-4 não estão visíveis nos PDFs distribuídos. Confirmar na bibliografia do docente antes de citar em trabalho avaliado.

**Ordem de leitura recomendada** (não é a numeração): 6 → 4 → 1 → 5 → 3 → 2. Começa no mapa geral, desce à fundação (Vestefália), passa à fundação da *disciplina*, apanha o vocabulário de poder e termina na crítica contemporânea.

## O fio condutor: uma discussão em três andares

### Andar 1 — O consenso (Jackson & Sørensen)

Estudamos RI porque toda a gente vive em Estados, e espera-se que os Estados garantam **cinco valores**: segurança, liberdade, ordem, justiça e bem-estar. Cada valor gera uma família teórica:

| Valor | Teoria | Visão do mundo |
|---|---|---|
| Segurança | **Realismo** | Rivais armados que periodicamente entram em guerra |
| Liberdade | **Liberalismo** | Estados que cooperam pela paz e pela mudança progressiva |
| Ordem e justiça | **Sociedade internacional** | Atores socialmente responsáveis com interesses partilhados |
| Bem-estar | **EPI** | Mundo fundamentalmente socioeconómico, não só político-militar |

O sistema de Estados é **histórico**, não natural: sucedeu a clãs e impérios e pode ser sucedido por outra coisa. Nasceu na Europa no séc. XVI, consolidou-se em Vestefália, globalizou-se em três vagas (incorporação forçada de não ocidentais → anticolonialismo → dissolução da URSS) e passou de **50 membros da ONU em 1945 para quase 200** no fim do século.

### Andar 2 — A desmontagem (Cravinho)

Três desmontagens sucessivas, sempre com o mesmo método: **mostrar que aquilo que a disciplina toma por descrição da realidade é na verdade um modelo que exerce poder.**

1. **Vestefália é um tipo-ideal, não uma descrição** (Leitura 4). Nunca correspondeu à realidade; teve sempre uma função política — legitimar o poder estatal e deslegitimar outras formas de poder. A prova está nas exceções: o **Haiti** foi penalizado pela sua política *interna* e só reconhecido quando já não incomodava, o que contradiz frontalmente a norma da não-ingerência.
2. **A história da disciplina é uma caricatura** (Leitura 1). A dicotomia "idealismo vs realismo" foi **inventada pelos realistas, a começar por Carr**, e sobreviveu por utilidade ideológica na Guerra Fria, por repetição e por preguiça. Os chamados "idealistas" eram estatistas (Zimmern, Potter), não federalistas mundiais; o único traço comum era a **fé no progresso** (Bull).
3. **O conceito de Estado em RI é rudimentar** (Leitura 3). O Estado tem três facetas que a disciplina confunde: **ator jurídico** (igual para todos), **instrumento de controlo efetivo** (varia radicalmente) e **participante em redes normativas**. A codificação jurídica **simplifica, altera e oculta** — o exemplo é "um Estado, um voto", analogia sem os valores que fundamentam "uma pessoa, um voto".

### Andar 3 — O que fica no lugar (Cravinho, Leitura 2 + Duarte, Leitura 5)

- **Governância** em vez de governo: bens públicos globais, atores conglomerados, comunidades epistémicas, participação obrigatória e constitutiva. **Novo medievalismo** (Bull) e **fragmegração** (Rosenau).
- **Poder** já não é posse de recursos: é a **capacidade de fazer e desfazer normas** (Cravinho) e a capacidade de atrair (**soft power**, Nye) num sistema **uni-multipolar** (Huntington) — unipolar no militar, multipolar no económico e cultural (Hassner).

## Os choques que dão bons ensaios

> Estes são os pontos onde as leituras se contradizem. É aqui que se ganha nota.

| Questão | Jackson & Sørensen | Cravinho |
|---|---|---|
| **Vestefália** | Apresentam as duas interpretações (tradicionalista empirista vs revisionista construtivista) e não tomam partido explícito | Toma partido: é modelo útil mas hoje "demasiado longe da realidade"; termina a pedir "uma visão ainda sem nome" |
| **O Estado** | Ferramenta analítica clara: duas dimensões, quatro categorias, quase-Estados | Entidade cuja simplificação **oculta** o que interessa; propõe desconstruir e reconstruir |
| **O manual** | *É* o manual | Acusa os manuais de perpetuarem mitos para preservar o predomínio na disciplina (via Carvalho et al.) |

**Ironia produtiva:** a crítica revisionista que Jackson & Sørensen citam (Carvalho et al. 2011) diz que os manuais perpetuam o mito de Vestefália — e diz-no *dentro de um manual*. Cravinho faz a mesma crítica à história do "primeiro debate". **É o mesmo movimento aplicado a dois objetos diferentes.**

**Choque secundário (Leitura 5 vs Leitura 3):** Duarte dedica um capítulo inteiro a taxonomizar o poder (recursos, soft/hard, potências médias/regionais/emergentes, polaridade); Cravinho diz que RI "usa o conceito de poder de forma extremamente rudimentar" e que uma teoria do poder para o séc. XXI tem de passar pelas redes normativas. **Ler Duarte como o estado da arte convencional e Cravinho como a objeção a esse estado da arte.**

## Conceitos a saber definir sem consultar

**Estruturais:** sistema vs sociedade internacional (Bull) · soberania jurídica vs política · condição jurídica vs empírica de Estado · quase-Estado · reconhecimento · anarquia
**Ordem:** equilíbrio/balança de poder · segurança coletiva · inimigo anónimo · *pacta sunt servanda* · não-ingerência · dilema de segurança · hegemonia · Concerto da Europa
**Poder:** hard/soft power · command vs co-optive power · poder funcional (Moreira) · potência média / regional / emergente · unipolar / multipolar / uni-multipolar / apolar
**Contemporâneos:** governância · bens e males públicos globais · redes normativas · comunidades epistémicas · Estado-concorrência (Cerny) · novo medievalismo · fragmegração · défice democrático global · interdependência

## Datas de referência

| Data | Acontecimento | Porque importa |
|---|---|---|
| 1618-48 | Guerra dos Trinta Anos | Primeira guerra continental europeia |
| **1648** | **Paz de Vestefália** | Legitima uma comunidade de Estados soberanos (data simbólica) |
| 1713 · 1815 | Utreque · Congresso de Viena | Concertação multilateral; ordem anti-hegemónica e contra-revolucionária |
| 1793 · 1839 · 1853 | Macartney · Guerra do ópio · Perry no Japão | Incorporação **forçada** dos não ocidentais |
| 1856 | Tratado de Paris | Entrada formal do Império Otomano na sociedade internacional |
| 1917 · 1918 · 1919 | Revolução bolchevique · 14 Pontos · Versalhes/SDN | As cinco traves mestras da nova ordem |
| 1919 | Cátedra de Aberystwyth (Zimmern) | **Nascimento da disciplina** |
| 1928 | Pacto Briand-Kellogg | Proíbe a guerra como instrumento de política externa |
| 1945 · 1947 | ONU (50 membros) · Índia e Paquistão | Início da descolonização acelerada |
| 1970 · 1995 | 160 membros ONU · ~100% da população em Estados | Sistema efetivamente global |
| 1989-91 | Queda do muro · dissolução da URSS | Estágio final da globalização; fim do "curto séc. XX" (Hobsbawm) |
| 1999 · 2001 | Seattle · 11 de Setembro | Antiglobalização; terrorismo no topo da agenda |

## Prováveis perguntas de exame

1. Distinga **sistema** de **sociedade** internacional e dê um exemplo histórico de sistema sem sociedade. *(Otomanos)*
2. Enuncie os quatro princípios de Vestefália e explique por que razão o autor diz que o modelo "nunca foi uma descrição".
3. **Quais são as duas interpretações de Vestefália?** *(pergunta literal do manual)*
4. Porque é que a dicotomia "idealismo vs realismo" é considerada enganadora?
5. Explique o **dilema de segurança** e relacione-o com a balança de poder.
6. Distinga condição **jurídica** de condição **empírica** de Estado; o que é um quase-Estado?
7. Distinga *hard* de *soft power* e explique por que motivo Nye diz que o soft power não se reduz a influência.
8. O que acrescenta o conceito de **governância** ao de governo, e que problema resolve que Vestefália não resolve?
9. Comente: "num período de expansão dos direitos humanos e das democracias, as populações são chamadas a decidir sobre cada vez menos".
10. Faz sentido encarar o terrorismo como um ataque ao próprio sistema de Estados?

## Fichas detalhadas

- Cravinho (2002) — A sociedade internacional entre as duas guerras (Leitura 1)
- Cravinho (2002) — Governancia e globalizacao (Leitura 2)
- Cravinho (2002) — O conceito de Estado na disciplina contemporanea (Leitura 3)
- Cravinho (2002) — Vestefalia e a sociedade internacional moderna (Leitura 4)
- Duarte — O conceito de poder (Leitura 5)
- Jackson e Sorensen — Por que estudar RI (Leitura 6)

UC: Introducao as Relacoes Internacionais

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*Síntese das Leituras 1 a 6 — Introdução às RI — apontamentos de Gustavo Maia Castelo Branco*
*gustavomaiacastelobranco.pt/ri · usa, altera, passa a quem precisar*
